quinta-feira, 9 de julho de 2009

Da armadilha das fantasias




Acordou com o cachorro lambendo-lhe a cara. Estava de bruços. Seu braço esquerdo pendia para fora da cama e seus dedos encostavam a renda do sutiã preto atirado ao chão horas antes. Na boca, um gosto indefinível. Mistura da hortelã dos mojitos, cigarros, balas de canela e beijos... Beijos?!

Nesse momento, seu coração dispara. Começa a lembrar da série de eventos da noite anterior. Ouve seu telefone tocar na sala ao lado, como uma sirene alertando para os fatos que ela está por recordar. Toma coragem, vira a cabeça, e mira o sujeito que repousa deliciosamente a seu lado. É impressão sua ou ele parece sorrir? Sim, ele sorri. Enquanto dorme. Com ela.

Ela pensa que é um bom sinal. O sorriso. Tenta lembrar se tudo aconteceu como ela fantasiava desde que o conheceu. Ela desconta do fato de que, em suas fantasias, ela tinha o corpo da Gisele, os cabelos da Aniston, a inteligência da Simone de Beauvoir e morava numa cobertura com vista para o mar. Conclui que a realidade foi melhor.
O telefone toca novamente. São nove horas. Sabe que é sua mãe fazendo a primeira ligação diária. Mas ela não quer levantar. Não quer se mexer. Quer ficar ali, congelada, suspensa. Olhar fixo na porção de franja que cobre suavemente o olho direito dele.

Foi um amigo que os apresentou três meses antes. Se encontraram assim, sem querer, em um bar. “Esse é meu amigo, o Carlo”, disse. C-a-r-l-o. Ela adorou como sua língua dançava quando falava seu nome: “carrrllllo”. E ele era lindo. Inteligente. Gostava do Cortázar, do Pessoa e sabia quem era Dorothy Parker! Mas nesse dia, ele não deu bola pra ela. Nem na segunda vez que se viram. Nem em nenhuma outra até a noite passada.

Mesmo assim, sempre que ela sabia (ou desconfiava) que o encontraria, caprichava na produção. Roupas novas, perfume, cabelo impecável, maquiagem bem feita. Nada de exageros. Apesar do interesse não correspondido, ela gostava de se sentir bonita perto dele. Eles sempre conversavam muito. Sobre tudo. E ele, nada de manifestar qualquer código que não fosse “te acho uma conhecida legal pra bater papo”.

Mas na noite anterior tudo mudou. Ela pensa na ironia – não tinha se arrumado pra sair. Foi por acaso. Nem sabia que ia encontrá-lo. Estava em casa, uma amiga ligou: “Topas um chopinho? Tô passando aí agora”. De calças jeans, tênis e uma jaquetinha (que era bonitinha, mas nada de mais), colocou um batom nos lábios, prendeu os cabelos num rabinho e saiu.

Agora, deitada ao lado dele, já fazia planos. Imaginava o que ele diria quando acordasse. “Nossa, sempre quis que isso acontecesse, mas tinha medo de fazer qualquer coisa”, ou “Ontem percebi o quanto sempre te desejei”. Ou algo mais no terreno brega-mas-a-gente-adora-ouvir: “Vou fazer um café da manhã pra nós dois, minha deusa”.

A PORRA do telefone TOCA mais uma vez! Agora ele se mexe. E acorda. Coração disparado mais uma vez. Ela não consegue se mover. Nem falar. A expectativa é muito grande. Não tem coragem de dizer a primeira palavra. No ímpeto de adiar o que ela não sabe se quer ou não ouvir, ela corre do quarto. Atende o telefone. “Alô?”
É a amiga da noite anterior.

- O que foi? Não posso falar agora!
A amiga dá um suspiro, faz uma pausa (provavelmente para fins compreensivo-dramáticos) e diz:
- Ai, amiga, olha só... Depois que vocês saíram do bar, chegou aquele teu amigo que nos apresentou o Carlo...
(“Carrrlllo”, ela delira). A outra continua:
- E ele contou uma coisa... Nem sei como te dizer... Mas é o seguinte. Ele é casado. Tipo, não é casado, casado. Mas mora com ela... E ontem... bom... ontem ele tinha tido uma briga feia com a tal... esposa, namorada... sei lá!

(...)

Ela desliga sem dizer nada. Volta pro quarto. Senta na cama. Pensa como é incrível - já é outra mulher. Diferente daquela que saiu do quarto um minuto antes pra atender o maldito telefonema. Ele está sentado também. Amarra os cadarços dos tênis. Ele se vira para ela e, enquanto toma ar pra falar alguma coisa, ela interrompe rapidamente e fala, num só fôlego:

- Bom dia, Carlo. (“carrrrllllo”!) Antes-de-mais-nada-queria-te-dizer-que-a-noite-foi-muito-legal-mas-não-quero-que-tu-pense-que-vai-passar-disso-pra-mim-tu-é-um-amigo-legal-pra-bater-papo!

Ele sorri. Lindo. Ela sorri. Amarelo. Ele responde, num tom de tranquilidade tipicamente masculino:
- Claaaaaro. Nos vemos na festa da Cíntia essa noite?

Ela faz um constrangedor sinal de “positivo” com o dedo. Ele termina de se vestir. Dá-lhe um beijo no rosto e vai embora. Ela ainda não levantou da cama. Continua ali, sentada. Sente-se presa, sem escolha, poder ou autonomia. Volta sua atenção ao armário a sua frente e pensa:
- Hummm... O que vou vestir essa noite? Tenho que caprichar, afinal, o Carrrrlllo vai estar lá...

6 comentários:

Anônimo disse...

Ah, essas mulheres esperançosas...
Gostei muito!

ML disse...

Nossa, "gurias", parabéns pela crônica MARAVILHOSA!
Me lembrou - muito - as da Patrícia Travassos.
De repente, juntando tudo isso e mais, poderia rolar um livro, hein?
Me convidem pra noite de autógrafos, ok?

bjnhs

PITA disse...

hehhehe...ÓTIMO!!

Rita Copetti de Queiroz disse...

Muito boooooooooommmmmmmm!

Nada como um pouco de realidade gurias... ehehehehe, to rindo, meio abobada... ehehehe... vou mandar esse texto pro meu Carrrrlllooo dar uma lidinha... bjocas!

Mumu Joner disse...

Bruna querida! Tenho orgulho de ser tua amiga e vergonha de não te encontrar pra falarmos mais!! Amo teus textos, queremos mais! Queremos muitos mais! Queremos livros, sim! Editora Meninas Intimadas, já pensaram? hahaha... E o que dizer de nós mulheres? Guria, incrível como todas passamos por "eventos" bem parecidos pelo menos uma vez na vida, cada vez mais me convenço disso... e tuas palavras só fazem confirmar - neste caso, infelizmente - beijão!!

Bruna Gandolfo disse...

Amadas!
A-do-ro que vcs têm lido e se identificado com o que escrevo! Estou com mais um textinho saindo do forno... esse findi coloco por aqui... E o próximo encontrinho?
Bjocas a todas!

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